sexta-feira, 2 de outubro de 2026

São eles, homens e mulheres, do EUA

 Uma grande ode para a contemplação, ao ato de meditar. Olhar profundamente a natureza e buscar o sublime da qual disse Kant. Ideia ultrapassada mas, para mim, Robbie Basho chegou perto, senão, definitivamente conseguiu. A técnica dos vanguardistas da música folk estadunidense, principalmente John Fahey, seu precursor, é uma das coisas mais sensacionais que alguém pode ouvir. O violão fala radicalmente e de forma sinistra, trilha sonora dos pensamentos, das ideias e da criatividade. Falo de pequenas impressões inicias mas, que abre portas para pensar profundamente sobre a mítica epopeia de tantos compositores estadunidenses que acabamos deixando de lado.  
 
 
Death Chants, Break Downs & Military Waltzes, 1963.
 
Não falarei aqui, até porque acho que há pessoas mais dedicadas a isso, sobre a vida e carreira dessas figuras emblemáticas, mas de uma série de reflexões a respeito da cultura norte-americana, de violão, e de homens e mulheres do “meio do mato”. Há algo em comum em todos esses homens e mulheres sozinhos que constroem, em sua trajetória, algo de mítico. Karen Dalton, infelizmente morreu nas ruas de Nova Iorque vítima de AIDS nos anos 90. O já citado John Fayeh, “Blind Joe Death” tem uma segunda carreira nos anos 90, antes de morrer vítima de complicações médicas por problemas cardíacos, com anos, ao natural, lutando contra o alcoolismo e a diabetes. Jackson C. Frank ficou cego de um olho, traumatizado durante sua vida, maltrapilho e perturbado. Robbie Basho, por azar, da mesma forma morreu, ainda mais novo. Blaze Foley, em defesa de um amigo, denunciando falcatruas de seu filho, levou um balaço no peito. Talvez, a única referência seja o “bom velhinho” do Michael Hurley, que não se encaixa tanto na vida desgraçada dos já citados acima. Para mim, há um elemento místico que não deve ser romantizado. Fora isso, lembrar de Elizabeth Cotten é quase dever nesse caso, por toda a injustiça cometida sobre sua principal música e sua vida em luta.
O folk americano, country e blues, são as identidades mais autênticas da música norte-americana. Criações diretas que expressam os sentimentos, as lutas e histórias desse povo que, daqui vemos muito ou sabemos muito pouco. O que há de universal, de fato, é a opressão que os assola. Um amigo recentemente se apavorou quando descobriu quem era Billy the Kid e condenou os estadunidenses de sua cultura “militarista”, por saudar alguém, na visão dele, tão “violento”. Está completamente errado. Está é a história da humanidade. O que há de universal com o povo americano, e em todos os povos do mundo, além da condição de ser humano, é a opressão e resistência secular. Em John Fahey, além das anedotas de Fahey sobre a morte e sua brincadeira com os acordes, sem abrir a boca uma vez se quer criam-se histórias de vida cotidiana, de lugares e ficções mil. Basho remonta tradições já bem anteriores, busca também nos indianos e vai de encontro com a natureza, traduzindo o seu som, o que a contemplação fala, como grande retomada ao cru e o “primitivo”. Se a natureza tocasse música, e entendesse sobre instrumentos, tocaria algo parecido com Robbie Basho.
 Blaze Foley Songs - A List of 15 of the Best | Holler
Blaze Foley 

O que quero dizer com tudo isso, é que todos esses homens e mulheres, que tocaram sobre sentimentos tão íntimos, histórias banais, nostalgias ou apenas brincadeiras foram maltratados (em grande parte). Em The Texas Chain Saw Massacre (1974), vemos uma família monstruosa, ou melhor, transformada em monstro pela própria nação, de canibais e assassinos, como Woyzeck, da peça desorganizada de Büchner, consequência de suas políticas, da exploração dos mais pobres, da desvalorização e luta por sobrevivência, estava aí, os marginalizados do folk americano. Ainda usando John Fahey como exemplo, conta Eddie Dean em 2001:

“During his resurgence and up until his death, Fahey resided in a series of motels in Salem. His nomadic, nonmaterialist ways were in keeping with the man Blackwood knew: ‘John was an essentialist, and the only thing essential to him was his art—his writing and his music—and everything else was just a distraction.’”

 
 
Karen Dalton
 
Da mesma forma, Blaze Foley viveu em seu carro e Jackson C. Frank virou andarilho por bastante tempo. Possuíam, consigo, apenas o violão e a arte. De resto, estiveram ligados, unicamente, pela decisão de fazer música. Fez parte da cultura e da mitologia envolta do próprio gênero, mas sinceramente, é meramente a condição atroz que esse já decadente império tratou seus melhores músicos. Neles, nessas cordas de violão, ainda residem a humanidade e compaixão de povo maltratado, embebido de comida super processada, de rodovias e estacionamentos que dilaceram os vales verdes e saqueiam, estupram e matam os povos de todo o mundo. Está perto do fim, e no final, além do jazz, do blues e do country, estará o folk e a simplicidade de dizer o quão um hambúrguer pode ser gostoso.
 
 untitled
 Robbie Basho
 
 

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