Havia uma série de coisas que gostaria de falar aqui. Certa vez, ao terminar meu último namoro, em uma sofreguidão novelesca no ouvido de uma grande amiga de que não aguentava a falta de A. Disse que estava extremamente apaixonado, que não aguentava a ausência, e mais um tanto de sentenças dessas que enganamos só a nós mesmos. Ela respondeu: por que não se apaixona pelas coisas que você tanto gosta?
Ao fim e ao cabo, alguns poemas, crônicas, contos foram produzidos neste interregno de tempo do meu término até agora, perto do seu aniversário de 1 ano de ausência, momento de verdadeiro início de superação, livre, sem a procura das correntes. Esse é um espaço seguro, e quero compartilhar as coisas da qual sou verdadeiramente apaixonado.
Aqui, para registrar, alguns escritos, poemas, etc.
Espero que gostem.
Putka Mayo
Um acorde bem tocado, um retinir dos dedos que destila anos bem vividos e turbulentos passados. Toada violenta, dias de chumbo, verdades difíceis de engolir ressoam nessa música delicada. As notas reverberam pela cordilheira, rebatendo nas montanhas andinas, no alto das escadas ancestrais, pelos salões de rochas precisamente cortadas que guardam peças e artefatos tão antigos quanto o amor, alto recife da aurora humana.
Lá embaixo, as águas correm e lavam os dias, levam o selo do tempo na sua correnteza. Rio violento e calmo, seu curso é o maestro, grande entre os grandes. Leva à mudança, transforma no bater das pedras, transforma a sua margem. Silhuetas lavam seus rostos. São os infortúnios que desaparecem ao tocar dessa água. O rio percorre caminhos difíceis, mas nunca, nunca perde seu destino. Água verde-esmeralda, água translúcida.
Os payadores e payadoras já muito perseguidos pelas memórias seguem o caminho do rio dedilhando seus violões, porque há muito comeram do antigo desprezo. São grandes conhecedores da história, são tão verdadeiros quanto afáveis, que engendram amores sinceros em seu peito. Especiais. Seu fardo é a felicidade na realização de seus sonhos infantis e monumentais. Não merecem nenhum mal, se não toda a alegria, por mais mal que a madrugada tenha lhes causado na caminhada pela selva, hoje não vem mais a desgraça que os abateu. O rio que a tudo cura, leva esses cantores, que as lavadeiras lavam seus trapos, onde a lama da tristeza se evapora. Para quem segue o curso desse rio, nada tem a amargurar.
O sol reluz após a longa madrugada de mau agouro, queimando as negras imagens que se esgueiram nos passados. Aurora, tu que é visão maravilhosa, marca do novo, se ergue no horizonte guiando esses cantadores de melódicas canções que contam histórias que contam histórias de antigas tradições melancólicas. Recheado de muitas felicidades e carinho é o canto dos pássaros complementando a orquestra do novo curso.
É dia de festa, porque o condor ascendeu aos céus e a tudo viu, ouviu, assistiu, contemplou e entendeu. Ele segue seu destino. São celebrações.
Sol Vermelho
Dessa terra vermelha sobe essa poeira feliz,
seguido desse abraço sincero, esse sorriso de dente cariado,
ou um aperto de mão com esse riso sem malícia,
de olhos com preocupação sincera, paciência modesta.
Vi esse Sol Vermelho alumiando o rosto do futuro, me contando
um causo do passado, me jogando na roda,
abrindo meus olhos, me jogando na luta.
Me deram de beber a água
que o passarinho não bebe.
Esta alegria toda
eu vi brotar
nessa poeira feliz.
Hoje Vou ao Cinema
Hoje eu vou ao cinema! Que felicidade!
Não tem hora, a hora é agora! Telão!
Pode ser em cadeira de plástico, ou em estofado.
As vezes é de couro, mas esse é raro!
Tem um cheiro especial, mas não é de pipoca.
É cheiro de gente, nem bom, nem ruim.
O cheiro de pipoca também é raro,
tem um tempo já.
Mas o especial é ver toda a gente
vendo,
e todo mundo junto,
assistindo.
Fico assim:
desse jeito, com
a coluna
um
pouco jogada, com
Fico assim,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀ os braços
desse jeito, ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀pra frente.
as vezes
com as duas mãos nos joelhos, (crec, crec)
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀ e as vezes,
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀os pés lá na frente. Esticaaaaados.
Que beleza é o cinema gratuito! Acompanhado ou Solitário.
No segundo, falo sozinho, mas acompanhado discutimos.
Ruim mesmo é acompanhar quem não acompanha.
Gente chata, que reclama sem fundamento.
Da vontade de mandar calar a boca:
chamar logo de jumento, de asno,
burro e sarnento.
Bom, hoje vou sozinho.
Amanhã, quem sabe,
contigo.

