quarta-feira, 14 de outubro de 2026

Amor

Havia uma série de coisas que gostaria de falar aqui. Certa vez, ao terminar meu último namoro, em uma sofreguidão novelesca no ouvido de uma grande amiga de que não aguentava a falta de A. Disse que estava extremamente apaixonado, que não aguentava a ausência, e mais um tanto de sentenças dessas que enganamos só a nós mesmos. Ela respondeu: por que não se apaixona pelas coisas que você tanto gosta?

Ao fim e ao cabo, alguns poemas, crônicas, contos foram produzidos neste interregno de tempo do meu término até agora, perto do seu aniversário de 1 ano de ausência, momento de verdadeiro início de superação, livre, sem a procura das correntes. Esse é um espaço seguro, e quero compartilhar as coisas da qual sou verdadeiramente apaixonado. 

Aqui, para registrar, alguns escritos, poemas, etc. 

Espero que gostem.

Putka Mayo 

This may contain: two people standing on a log over a stream in the middle of a mountain range 

Um acorde bem tocado, um retinir dos dedos que destila anos bem vividos e turbulentos passados. Toada violenta, dias de chumbo, verdades difíceis de engolir ressoam nessa música delicada. As notas reverberam pela cordilheira, rebatendo nas montanhas andinas, no alto das escadas ancestrais, pelos salões de rochas precisamente cortadas que guardam peças e artefatos tão antigos quanto o amor, alto recife da aurora humana.

Lá embaixo, as águas correm e lavam os dias, levam o selo do tempo na sua correnteza. Rio violento e calmo, seu curso é o maestro, grande entre os grandes. Leva à mudança, transforma no bater das pedras, transforma a sua margem. Silhuetas lavam seus rostos. São os infortúnios que desaparecem ao tocar dessa água. O rio percorre caminhos difíceis, mas nunca, nunca perde seu destino. Água verde-esmeralda, água translúcida.

Os payadores e payadoras já muito perseguidos pelas memórias seguem o caminho do rio dedilhando seus violões, porque há muito comeram do antigo desprezo. São grandes conhecedores da história, são tão verdadeiros quanto afáveis, que engendram amores sinceros em seu peito. Especiais. Seu fardo é a felicidade na realização de seus sonhos infantis e monumentais. Não merecem nenhum mal, se não toda a alegria, por mais mal que a madrugada tenha lhes causado na caminhada pela selva, hoje não vem mais a desgraça que os abateu. O rio que a tudo cura, leva esses cantores, que as lavadeiras lavam seus trapos, onde a lama da tristeza se evapora. Para quem segue o curso desse rio, nada tem a amargurar.

O sol reluz após a longa madrugada de mau agouro, queimando as negras imagens que se esgueiram nos passados. Aurora, tu que é visão maravilhosa, marca do novo, se ergue no horizonte guiando esses cantadores de melódicas canções que contam histórias que contam histórias de antigas tradições melancólicas. Recheado de muitas felicidades e carinho é o canto dos pássaros complementando a orquestra do novo curso.

É dia de festa, porque o condor ascendeu aos céus e a tudo viu, ouviu, assistiu, contemplou e entendeu. Ele segue seu destino. São celebrações.

 

 Sol Vermelho

This may contain: a painting of a red ball in the sky 

Dessa terra vermelha sobe essa poeira feliz,
seguido desse abraço sincero, esse sorriso de dente cariado,
ou um aperto de mão com esse riso sem malícia,
de olhos com preocupação sincera, paciência modesta.
Vi esse Sol Vermelho alumiando o rosto do futuro, me contando
um causo do passado, me jogando na roda,
abrindo meus olhos, me jogando na luta.

Me deram de beber a água
que o passarinho não bebe.
Esta alegria toda
eu vi brotar
nessa poeira feliz.

 Hoje Vou ao Cinema 

This may contain: a large group of chairs sitting in the middle of a desert 

Hoje eu vou ao cinema! Que felicidade!
Não tem hora, a hora é agora! Telão!
Pode ser em cadeira de plástico, ou em estofado.
As vezes é de couro, mas esse é raro!
Tem um cheiro especial, mas não é de pipoca.
É cheiro de gente, nem bom, nem ruim.
O cheiro de pipoca também é raro,
tem um tempo já.
Mas o especial é ver toda a gente
vendo,
e todo mundo junto,
assistindo.

Fico assim:
desse jeito, com
a coluna
um
pouco jogada, com
Fico assim,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀ os braços
desse jeito, ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀pra frente.
as vezes
com as duas mãos nos joelhos, (crec, crec)
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀ e as vezes,
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀os pés lá na frente. Esticaaaaados.

Que beleza é o cinema gratuito! Acompanhado ou Solitário.
No segundo, falo sozinho, mas acompanhado discutimos.
Ruim mesmo é acompanhar quem não acompanha.
Gente chata, que reclama sem fundamento.
Da vontade de mandar calar a boca:
chamar logo de jumento, de asno,
burro e sarnento.


Bom, hoje vou sozinho.
Amanhã, quem sabe,
contigo.

 

 

 

 

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

São eles, homens e mulheres, do EUA

 Uma grande ode para a contemplação, ao ato de meditar. Olhar profundamente a natureza e buscar o sublime da qual disse Kant. Ideia ultrapassada mas, para mim, Robbie Basho chegou perto, senão, definitivamente conseguiu. A técnica dos vanguardistas da música folk estadunidense, principalmente John Fahey, seu precursor, é uma das coisas mais sensacionais que alguém pode ouvir. O violão fala radicalmente e de forma sinistra, trilha sonora dos pensamentos, das ideias e da criatividade. Falo de pequenas impressões inicias mas, que abre portas para pensar profundamente sobre a mítica epopeia de tantos compositores estadunidenses que acabamos deixando de lado.  
 
 
Death Chants, Break Downs & Military Waltzes, 1963.
 
Não falarei aqui, até porque acho que há pessoas mais dedicadas a isso, sobre a vida e carreira dessas figuras emblemáticas, mas de uma série de reflexões a respeito da cultura norte-americana, de violão, e de homens e mulheres do “meio do mato”. Há algo em comum em todos esses homens e mulheres sozinhos que constroem, em sua trajetória, algo de mítico. Karen Dalton, infelizmente morreu nas ruas de Nova Iorque vítima de AIDS nos anos 90. O já citado John Fayeh, “Blind Joe Death” tem uma segunda carreira nos anos 90, antes de morrer vítima de complicações médicas por problemas cardíacos, com anos, ao natural, lutando contra o alcoolismo e a diabetes. Jackson C. Frank ficou cego de um olho, traumatizado durante sua vida, maltrapilho e perturbado. Robbie Basho, por azar, da mesma forma morreu, ainda mais novo. Blaze Foley, em defesa de um amigo, denunciando falcatruas de seu filho, levou um balaço no peito. Talvez, a única referência seja o “bom velhinho” do Michael Hurley, que não se encaixa tanto na vida desgraçada dos já citados acima. Para mim, há um elemento místico que não deve ser romantizado. Fora isso, lembrar de Elizabeth Cotten é quase dever nesse caso, por toda a injustiça cometida sobre sua principal música e sua vida em luta.
O folk americano, country e blues, são as identidades mais autênticas da música norte-americana. Criações diretas que expressam os sentimentos, as lutas e histórias desse povo que, daqui vemos muito ou sabemos muito pouco. O que há de universal, de fato, é a opressão que os assola. Um amigo recentemente se apavorou quando descobriu quem era Billy the Kid e condenou os estadunidenses de sua cultura “militarista”, por saudar alguém, na visão dele, tão “violento”. Está completamente errado. Está é a história da humanidade. O que há de universal com o povo americano, e em todos os povos do mundo, além da condição de ser humano, é a opressão e resistência secular. Em John Fahey, além das anedotas de Fahey sobre a morte e sua brincadeira com os acordes, sem abrir a boca uma vez se quer criam-se histórias de vida cotidiana, de lugares e ficções mil. Basho remonta tradições já bem anteriores, busca também nos indianos e vai de encontro com a natureza, traduzindo o seu som, o que a contemplação fala, como grande retomada ao cru e o “primitivo”. Se a natureza tocasse música, e entendesse sobre instrumentos, tocaria algo parecido com Robbie Basho.
 Blaze Foley Songs - A List of 15 of the Best | Holler
Blaze Foley 

O que quero dizer com tudo isso, é que todos esses homens e mulheres, que tocaram sobre sentimentos tão íntimos, histórias banais, nostalgias ou apenas brincadeiras foram maltratados (em grande parte). Em The Texas Chain Saw Massacre (1974), vemos uma família monstruosa, ou melhor, transformada em monstro pela própria nação, de canibais e assassinos, como Woyzeck, da peça desorganizada de Büchner, consequência de suas políticas, da exploração dos mais pobres, da desvalorização e luta por sobrevivência, estava aí, os marginalizados do folk americano. Ainda usando John Fahey como exemplo, conta Eddie Dean em 2001:

“During his resurgence and up until his death, Fahey resided in a series of motels in Salem. His nomadic, nonmaterialist ways were in keeping with the man Blackwood knew: ‘John was an essentialist, and the only thing essential to him was his art—his writing and his music—and everything else was just a distraction.’”

 
 
Karen Dalton
 
Da mesma forma, Blaze Foley viveu em seu carro e Jackson C. Frank virou andarilho por bastante tempo. Possuíam, consigo, apenas o violão e a arte. De resto, estiveram ligados, unicamente, pela decisão de fazer música. Fez parte da cultura e da mitologia envolta do próprio gênero, mas sinceramente, é meramente a condição atroz que esse já decadente império tratou seus melhores músicos. Neles, nessas cordas de violão, ainda residem a humanidade e compaixão de povo maltratado, embebido de comida super processada, de rodovias e estacionamentos que dilaceram os vales verdes e saqueiam, estupram e matam os povos de todo o mundo. Está perto do fim, e no final, além do jazz, do blues e do country, estará o folk e a simplicidade de dizer o quão um hambúrguer pode ser gostoso.
 
 untitled
 Robbie Basho
 
 

SAUDAÇÕES!


Prazer! Fico feliz que esteja aqui. Vai me encontrar falando tudo que gosto, além de escrever sobre tudo que sinto, e relacionar todas essas coisas juntas. 

Nunca fiz um blog, então algumas coisas serão amadoras. Paciência! Se fizer bom uso de tudo isso aqui, que bom! Se não fizer, sinto muito, não posso fazer muito! 




Amor

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